Esse seria mais um sábado que eu gastaria dormindo não fosse carnaval. Meu irmão e senhora estiveram aqui pela manhã pedindo pra que eu minha mãe os acompanhassem até o centro da cidade para assistir ao desfile de rua. Minha mãe não recusa convite nenhum de meu irmão e eu decidira não mais recusar favores à minha mãe, então, pra não escapar por muito estreita evasiva, eu iria.
O desfile estava marcado para as 21 horas. O calor fora intenso o dia inteiro, o sol, abrasante. Antes de partirmos, vi grossas nuvens escuras esgueirando-se por trás dos morros e em instantes uma chuva torrencial molhava a cidade como um regador molha um formigueiro. Trinta minutos depois as nuvens dispersaram e a chuva cessou. O sol ainda voltou fraco para o bis, aproveitamos a trégua, apanhamos nossas cadeiras e partimos. O pessoal agora saía de casa com pressa, o trânsito voltava a se intensificar, mas chegamos rápido no centro e logo encontrei estacionamento. No horizonte ainda havia algumas nuvens acossando os morros.
Pra quem não sabe, aqui em Venâncio o desfile acontece na ‘rua principal’. Os espectadores trazem cadeiras de casa ou se aboletam na calçada, nos bares e até mesmo nas árvores para acompanhar a marcha pagã.
Este ano a organização do evento providenciou umas grades às margens da rua, essas grades que os circos usam pra cercar o picadeiro no número dos leões. Foram dispostas a um metro do meio fio e engatadas umas nas outras de cabo a rabo ao longo da rua a fim de conter o pessoal na calçada. Diferente de anos anteriores, quando uma corda passava de árvore em árvore formando o legítimo ‘cordão de isolamento’ a fim de inibir a entrada de crianças e afrescalhados em geral na pista.
Estendemos nossas cadeiras no primeiro espaço vazio que encontramos. Tentei lembrar, em vão, quando foi a última vez que saí de casa no carnaval. Na adolescência, em tempos que cerveja não me causava alergia eu até me divertia por essa época.
Uma amiga me reconheceu no meio do populacho: ‘Mailo, até tu por aqui ??’ Não lembro o que respondi, mas fingi estar contagiado como os demais, mais ou menos o que ela apreciaria ouvir. Conversamos mais algum tempo, cumprimentei mais alguns conhecidos, outros me abanavam do outro lado da rua, todos, invariavelmente, se surpreendiam com minha presença.
Reparei que as pessoas já se acotovelavam, a calçada estava apinhada. Pelo sistema de som desfilava uma seleção de musiquetas cafonas. O atraso já passava de uma hora. Procurei com os olhos alguma guria bonita pra ficar observando enquanto torcia para que o sistema de som entrasse em curto. Pacientemente tive que instruir meu irmão a usar a câmera fotográfica, eu já me sentia arrependido e começava a me aborrecer
O sistema de som, depois de uma breve microfonia, finalmente anunciou a entrada da primeira escola.
Sem entrar em detalhes: ao todo desfilaram três escolas de samba do nosso município e um bloco vindo de Lajeado, chamado ‘os palhaços’. Cada escola demorava cerca de uma hora para percorrer o trajeto. Depois, mais uma hora de espera até que a escola seguinte iniciasse o seu. Mas parecia que nem a tardança, nem a chuva, que também se apresentou por breve período, afugentavam os espectadores. É interessante que índios, escravos e havaianos são sempre os personagens preferidos na composição das alas, justamente por necessitarem de pouca vestimenta, o que agrada o orçamento das escolas e o público masculino.
Exceto pela quantidade de mulheres bonitas, a carreata em nada me surpreendeu. Um dos parcos carros alegóricos transportava uma morena, que em minha breve avaliação particular, considerei como a participante mais bonita do evento e me lembrei do velho Fonseca: não há nada mais bonito do que uma mulher bonita.
Passava das três da manhã quando o ribombar sistemático cessou. Bocejando, levantamos de nossas cadeiras. Lentamente a multidão deixava o local enquanto as musiquetas voltavam a ser executadas. Minha mãe, meu irmão e minha cunhada entravam na fila do cachorro-quente enquanto eu me encarregava de recolher e levar as cadeiras. Fui andando devagar até o estacionamento. Uma menina muito linda passava mal, sentada no meio fio. Um colega de trabalho passou por mim e eu fingi não reconhecê-lo. Praguejei em voz alta quando pisei numa poça de vômito e me ocorreu que o vômito pudesse ter saído daquela menina, então, tudo bem...
Determinei que algo deveria mudar até o próximo carnaval e que não sairia de casa até a quarta-feira de cinzas.
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